Metástase cerebral de carcinoma pancreático.
Mais um caso interessante de necropsia que chegou para mim, vamos lá:
Cadela, Pitt-Bull, 10 anos. Foi levada a uma clínica para procedimento de OSH, o qual foi bem sucedido. Após uns 2 dias, no pós operatório, em casa, ela começou a apresentar sintomatologia nervosa como andar em círculos e “head-press”. Foi tratada, mas em uma semana ela veio a óbito. Assim a veterinária solicitou-me a necropsia. Lembrando que não tive informações de histórico anteriores à castração. E no procedimento cirúrgico, a veterinária observou, no rim, o que lembrava um grande cisto.
Quando abri o animal, notei alterações significativas nos pulmões, como petéquias e congestão. Havia aderência do epíploon aos cotos ovarianos e uterino, aumentados de volume e, à microscopia, um processo inflamatório. Porém não coloquei as fotos aqui. Comecemos com as fotos do pâncreas:
A foto abaixo mostra o pâncreas aumentado de volume, irregular, com uma grande equimose e formação de pequenas nodulações dos lóbulos pancreáticos. Notam-se também áreas de coloração acinzentada no lado esquerdo. Acima pode-se notar a mucosa duodenal, aparentemente íntegra:
Agora em detalhe, a próxima foto mostra a área de hemorragia do pâncreas. É possivel observar pequenos focos de necrose nos cantos da foto e a mucosa e serosa duodenal na parte superior:
Segundo o Jubb & Kennedy e o Meuten, é comum áreas de hemorragia em casos de neoplasia e o pâncreas pode apresentar uma coloração acinzentada mesclada com uma coloração esbranquiçada ou amarelada. A foto abaixo mostra uma área acinzentada do tumor:
Como a cadela apresentava sintomatologia nervosa, o cérebro era um importante órgão a se examinar. À retirada do cérebro notei, no lobo parietal direito, estrias hemorrágicas nos sulcos dos giros cerebais e uma extensa equimose que atingia lobos parietal e temporal e, no lobo frontal, havia uma estria hemorrágica num sulco do giro cerebral, como mostram as fotos:
Para facilitar o corte seriado do cérebro, imergi-o inteiro em solução de formol a 10% por 24h. Ao corte, com ele parcialmente fixado, observei hemorragia severa, em petéquias, no núcleo caudato direito e equimoses do lado esquerdo, na região do tronco cerebral. Havia também hemorragia no corpo caloso, do lado esquerdo. As fotos a seguir mostram as lesões no tronco cerebral e corpo caloso; a primeira foto é o cérebro parcialmente fixado, em visão rostral e a outra mostra o cérebro totalmente fixado pelo formol, em visão caudal:
E o cisto renal que mencionei acima, na verdade era uma glomerulonefrite crônica, que atrofiou e fibrosou a área, permitindo a formação de uma cavitação preenchida por líquido, logo abaixo da cápsula renal. A foto mostra os rins sem a cápsula:
No exame microscópico do pâncreas notei formações acinares bem diferenciadas, porém disformes, circundadas por estroma conjuntivo. Observei também linfócitos dispersos infiltrados no tecido conjuntivo. A foto foi tirada com a objetiva de 10x. Para uma melhor adequação, ela foi um pouco ampliada em relação ao tamanho oiginal:
No Jubb & Kennedy e no Meuten, é dito que existe uma variedade histológica de carcinomas pancreáticos exócrinos, dentre elas há o tipo acinar bem diferenciado, que mimetiza o parênquima pancreático normal; as células estão arranjadas basalmente, em ácinos mostrando células cuboidais irregulares, de núcleos ovalados relativamente uniformes.
Nas minhas lâminas, o que notei foram formações acinares disformes, com as células epiteliais irregulares e núcleos irregulares, mas de volume relativamente uniforme. Também havia um abundante estroma conjuntivo infiltrado por linfócitos. As fotos a seguir mostram os ácinos irregulares, o estroma, os linfócitos e células neoplásicas soltas circundadas pelo estroma. A título de comparação, a última foto é de um pâncreas normal. As fotos foram redimensionadas digitalmente, só pra lembrar. Seguem as fotos:
Agora, a gritante diferença de um pâncreas nomal, ainda que o corte não esteja lá tão didático:
Na microscopia do cérebro, havia hemorragia multifocal severa e vasos sanguíneos repletos de células neoplásicas:
Agora mais de perto:
E chega ao fim mais um caso. Devagar vou postando mais. Muito obrigado aos que acessam e comentam. Hasta!
Trauma crânio-encefálico (TCE)
Voltando a postar depois de 1GB de fotos perdidas…
Vamos lá: Cão, Poodle, 4 anos. O histórico desse animal veio em tópicos, dois tópicos:
- Ingestão de solvente?
- Queda da escada?
Como pode-se notar, são eventos bem distintos e de inter-relação um tanto duvidosa… Eu não devia, mas às vezes me vejo acostumado a hstóricos sofríveis…
Segue a foto do cão:
No procedimento de necropsia, as cavidades abdominal e torácica não apresentaram alterações, bem como não havia alterações nos órgãos. Retirando a pele da cabeça, havia um hematoma na região occipital, no músculo temporal, logo acima do côndilo occipital direito, atingindo a área da fossa temporal direita (do crânio), como mostra a foto a seguir:
À dissecção da musculatura e exposição do crânio, na região occipital, havia uma fratura cominutiva na região da crista nucal mostrando esquírolas ósseas e a exposição do cerebelo. A dissecção na foto não está muito boa, mas é possível ver o cerebelo e uma aresta óssea na parte superior:
Ao examinar o osso temporal, notei uma fratura linear caudo-rostral, dorso ventral do osso parietal. A dissecção desse está melhor:
Retirando a calota craniana, o cérebro mostrou petéquias, sufusões e um foco de contusão. Os giros cerebrais mostraram certo achatamento, indicando edema, como ilustra a foto:
Depois da retirada do cérebro, observei ainda a continuação da fratura acima no interior do crânio. A fratura se extendia no osso parietal até próxima ao osso etmóide, como está na foto:
No cérebro, ao corte, visualizei uma hemorragia do córtex e necrose aguda do tecido cerebral. Segue a foto:
Em uma breve descrição dos mecanismos do TCE e da injúria cerebral, sabe-se que estes eventos dependem da força do impacto e dos movimentos repentinos de aceleração e desaceleração da cabeça no momento do trauma. Nos cães adultos o volume do cérebro é discretamente menor que o volume da caixa craniana, o que permite um deslocamento do cérebro no interior do crânio, numa relação de golpe e contragolpe, que culmina na ruptura de vasos meningeais, ruptura da própria duramáter, e, no caso de contusão apresentado, a lesão do tecido cerebral. Após o trauma, ocorrendo a hemorragia intracraniana e contusão cerebral, o cérebro desenvolve um edema generalizado, há a compressão do ventrículo ipsilateral ao trauma, o que leva a compressão do tronco cerebral, atingindo centro respiratório e levando o animal a óbito.
Consultas:
Jubb, Kennedy & Palmer’s Pathology of domestic animals 5th ed., v.1, cap. 3, p. 343-45, 2006.
Apresentação de slides disponível em: www.aprp.org.br/arquivos_aulas/tce.pps
Este mesmo post tb está disponível em www.abmvl.com/blog , mostrando uma abordagem da medicina veterinária legal neste caso.
Óbito em pet-shop. Um caso de necropsia.
Os pet-shops, hoje, são muito populares devido aos seus serviços de banho e tosa, venda de produtos para animais (supérfluos ou não) e atendimentos clínico-veterinários. Por vezes ocorrem óbitos de animais quando da realização de um dos serviços (principalmente banho e tosa). Com razão, isso é uma grande “dor de cabeça” para o pet shop, uma vez que o proprietário confiou seu animal, muitas vezes saudável, aos serviços do estabelecimento.
Este post mostrará um de quatro ou cinco casos de óbito (não me lembro ao certo) que já atendi, ocorrido no procedimento de banho e tosa. Este post baseia-se na minha experiência com cães clinicamente saudáveis, os quais vieram a óbito em pet-shops. Essas mortes ainda são um mistério e estão sendo estudadas hoje. E alguns estudos estão mostrando que nesses óbitos, os cães não estavam tão saudáveis como se pensava.
Curiosamente o cão do caso relatado aqui era de propriedade de um membro do PCC e, o dono do pet-shop mandou-me, desesperado, o cão para a necropsia, após saber a origem do mesmo.
Vamos lá. Cão, São Bernardo, macho, 2 anos. Histórico: Veio a óbito no procedimento de banho-e tosa. Animal era agitado. (histórico é sempre assim, mesmo: estava bom e morreu. Faz tempo que não recebo um a contento). Curiosamente, todos os históricos de morte em pet-shop que atendi relatavam o animal agitado ou estressado.
No exame externo observou-se uma tosa rente ao pelo, petéquias na pele da região torácica e mucosas oculares congestas, como mostram as fotos:
Ao exame dos órgãos internos o que sempre se nota, nesses casos, é uma congestão pulmonar, hemorragia pulmonar, princpalmente na região dorsal os lobos caudais, e um severo edema. Também nota-se dilatação cardíaca aguda (presente, na maioria das vezes, em casos de insuficiência cardiorrespiratória). As fotos a seguir mostram o edema pulmonar (espuma na traquéia), a congestão e hemorragia dos pulmões e a dilatação cardíaca, principalmente no ventrículo direito:
Na maioria desses casos, quando não há outra patologia envolvida, os achados de necropsia resumem-se às alterações pulmonares e cardíacas descritas neste caso. Não tenho as fotos, mas o restante dos órgãos não mostraram qualquer alteração macroscópica. A microscopia mostrou o que a macro mostra: edema, congestão hemorragia pulmonares. Pode haver, também, congestão hepática.
A causa mortis foi insuficiência cardiorrespiratória, que pode ser decorrente de choque neurogênico (como sugeriu-me o bom comentário do Eduardo, abaixo). Para a patologia principal, é difícil afirmar algum diagnóstico, já que poucas informaões geralmente são passadas como histórico. Conversando com quem entende mais que eu e lendo coisas, princialmente de patologia humana, alterações desse tipo podem ser vistas em casos de intermação (como se deixasse um cão fechado dentro de um carro, no sol de meio-dia) e também no stress respiratório agudo (elocubra-se que é uma descarga tão grande de adrenalina que pode causar uma descompensação cardíaca). Isso não é comprovado, mas eu, Rodrigo, acredito que isso seja posível.
Assim, quando um animal vier a óbito num procedimento de banho e tosa, colham o maior número de informações possíveis para nos ajudar (os patologistas) para que cheguemos a uma conclusão definitiva, ou pelo menos para que angariemos o maior número de dados possíveis em casos desse tipo e façamos estudos para descobrir o que se passa nessas mortes. Pelo o que eu vejo, estamos no rumo certo.
Este mesmo post tb está disponível em www.abmvl.com/blog , mostrando uma abordagem da medicina veterinária legal neste caso e, recentemente dei uma entrevista para um blog justamente sobre esse assunto. Vocês podem ler a entrevista aqui: http://tinyurl.com/2boa9n7
Fotos macroscópicas e microscópicas pt. 2
Como no post anterior, de mesmo nome, apresento umas fotos macroscópicas e microscópicas antigas, de casos diversos que já recebi e fotografei. Assim segue mais um breve “atlas” de patologia. Divirtam-se.
Começando com citologia, a foto a seguir é de um adenoma de glândula perianal hepatóide. Elas lembram hepatócitos na citologia:
Na babesiose bovina, quando da infestação bela Babesia bovis, é possível visualizá-las no exame citológico do cérebro. A foto a seguir é de uma impressão em lâmina, de siestema nervoso central, corada pelo panótico rápido, onde observa-se um capilar sanguíneo repleto de hemácias infestadas com babesia (pontilhado basofílico). A foto está mais ou menos, mas dá para ver.
Ainda falando de parasitas, esse foi um achado ocasional num hemograma: Hepatozoon canis, Notem nos neutrófilos mais acima, os parasitas elípticos e levemente basofílicos no citoplasma:
Agora uma lâmina de histologia, de um parasita bem comum: Demodex canis. Essa fot está em maior aumento; é um corte do folículo piloso mostrando no seu interior diversos corte do parasita:
As próximas fotos são de impressões, em lâmina, de córtex do sistema nervoso central, coradas pelo método de Sellers. As fotos mostram neurônios apresentando corpúsculos de inclusão citoplasmáticos, nesse caso corpúsculos de Negri (são de coloração lilás, elípticos ou arredondados). A primeira é de um bovino infectado pelo vírus da Raiva, a segunda é de um caso de Raiva humana (corpúsculos no neurônio à esquerda superior da foto):
Agora duas fotos mostrando a infecção cutânea por Microsporum sp.. Podem-se ver as hifas (pontilhado basofílico) na parede interior do folículo piloso e a densa reação inflamatória na derme, pela coloração de HE. A outra, corada pelo método GMS de impregnação por prata, mostra as hifas no interior do folículo, em coloração enegrecida:
Passando para as neoplasias, a foto abaixo é de uma citologia de fibrossarcoma. Notem o material eosinofílico ao fundo (colágeno) e as mitoses horrendas:
Ainda de fibrossarcoma, mas na histologia, na foto a seguir observa-se um grande fibroblasto neoplásico:
Agora a citologia de um meloanoma: observem os melanócitos pleomórficos e os grânulos de melanina no seu citoplasma:
Agora mostrarei um pouquinho de macroscopia. Aproveitando o melanoma acima, mostro a foto de um melanoma no dedo de um cão. É um corte longitudinal, onde é possível ver as falanges média e distal, o tendão e a gordura do coxim plantar; acima dessas estruturas encontra-se o tumor, irregular, de aspecto homogêneo e coloração enegrecida:

As fotos a seguir são de um cão com gastroenterite hemorrágica. A primeira mostra os membros pélvicos e a cauda sujos de sangue:

Esta outra mostra a cavidade aberta e o aspecto hemorrágico da serosa das alças intestinais:

E a última, deste caso, mostrando a mucosa intestinal severamente hemorrágica:

Agora um caso de cistite hemorrágica em um gato. Notem as petéquias, sufusões e os coágulos aderidos na mucosa vesical:

Um abscesso na cavidade celómática de periquito australiano:

Voltando para a microscopia, uma foto de tumor de células basais. É uma neoplasia benigna, formada pelos agrupamentos celulares e um estroma conjuntivo. Neste caso é do tipo adenóide.

E para terminar o post, uma foto de um tumor de células gigantes na cavidade oral de um cão. Notem as células multinucleadas e o pleomorfismo acentuado.

Assim termina mais um post. Outros virão em breve! Lembrem sempre de citar as fontes!!!!! Abraço!
Um caso de hidrocefalia em cão da raça Pug.
Cão, Pug, 2 meses. O único histórico que me mandaram foi de inapetência e êmese. E a pessoa que me solicitou a necropsia pediu um exame minucioso do trato gastrointestinal…
No exame externo já percebi um aumento de volume do crânio; as suturas cranianas das fontanelas, na região do bregma, não estavam consolidadas.
Ao abrir o cão notei a bexiga repleta e os intestinos aparentemente normais, como mostra a foto:
Fiz o exame do trato gastrointestinal e dos outros sistemas com igual atenção e não foram encontradas alterações releventes até o exame do cérebro. Quando da retirada das meninges, num titubeio, a ponta da tesoura adentrou ao cérebro, deixando escorrer grande quantidade de líquido fluido e cristalino. Com isso, o córtex frontal “murchou”, deixando uma depressão na superfície cerebral. A foto a seguir mostra o cérebro não fixado; observando atentamente pode-se ver o córtex em baixo relevo na região frontal e parietal:
Justamente para fins fotográficos, fixei o cérebro inteiro em formol 10%. Depois de fixado realizei um corte transversal, aproximadamente no terço inicial do corpo caloso. A superfície de corte revelou os ventrículos laterais dilatados e atrofia da massa cerebral. Na foto seguinte são mostrados os ventrículos dilatados, fragmentos dos plexos coróides e parte dos hipocampos, ventralmente:
A dilatação dos ventrículos junto ao acúmulo patológico de líquor nos mesmos configura a chamada hidrocefalia, a qual poder ser congênita ou adquirida. A primeira é uma morfogênese defeituosa do sistema ventricular cerebral podendo ser causada por distúrbio genético ou até por ação teratogênica de medicamentos; é geralmente observada nas primeiras semanas de vida e é vista mais usualmente em raças de porte pequeno. A hidrocefalia adquirida pode ser ocasionada por diversos fatores que causem a obstrução do sistema ventricular ou por defeitos na absorção do líquor. Fatores estes que podem variar desde causas traumáticas, inflamatórias e até neoplásicas (Se se fizer uma busca pela internet, encontram-se diversos relatos de casos, dos mais variados, de hidrocefalia adquirida).
A hidrocefalia é um tanto comum na rotina veterinária (tanto na clínica como na patologia), mas como este blog é para documentar minha rotina, fica aqui este post para um documento fotográfico. Forte abraço!
Referências:
http://www.sovergs.com.br/conbravet2008/anais/cd/resumos/R0074-3.pdf
KIM, H.; et al. Application of ventriculoperitoneal shunt for hydrocephalus in a dog with syringomyelia an Chiari I malformation. Jvet Sci, 2006 Jun; 7(2) p.203-206.
Corpo estranho no esôfago de cão.
Este caso é de uma cadelinha poodle, na qual ralizou-se uma cirurgia de piometra. Segundo a veterinária a cirurgia correu bem, mas a cadela veio a óbito enquanto fazia-se a sutura. Com dúvidas do que poderia ter acontecido, ela solicitou a necropsia.
À abertura do animal notei o coto uterino perfeitamente transfixado e sem hemorragia. Na foto a seguir observa-se a bexiga e o coto uterino:
Ao abrir o tórax, observei grande quantidade de líquido livre avermelhado, turvo e com gotículas de gordura. O pericárdio se encontrava hemorrágico e com vasos aparentes, como ilustra a foto:
Pela coloração do líquido já suspeitei de ruptura; quando pressionei o estômago, na cavidade abdominal, fizeram-se bolhas de ar no líquido torácico! O que confirmou minha suspeita.
Quando tracionei o primeiro conjunto, nitidamente já pude ver o esôfago rompido por um fragmento de osso (possivelmente de frango). Na foto abaixo pode-se observar o esôfago rompido pelo osso, entre os pulmões:
Assim, abri o esôfago para avaliar o tamanho do osso e a lesão na mucosa esofágica. O fragmento ósseo era em formato de “V” e ainda havia uma pequena erosão da mucosa, como mostra a foto:
Examinando mais a fundo, encontrei um fragmento ósseo menor “enterrado” na mucosa:
Sem contar que em meio ao líquido no tórax havia outros fragmentos ósseos menores e os pulmões estavam praticamente “cozidos”. Eu acredito que esse animal tenha morrido por uma associação de fatores (cardiorrespiratórios e sépticos). Como não havia conteúdo gástrico, o cão estava em jejum na ocasião cirúrgica. As fezes no reto do animal também continham fragmentos ósseos, ou seja: o esôfago dela já estava rompido pelo osso há pelo menos 24 horas. Que judiação…
Bom, não cabe a mim ficar relatando elocubrações. Guardo-as para mim. Como todo relatório de necropsia, me atenho ao observado. Eu só sei que realmente não se deve dar ossos para seu cão. Termino aqui o post e espero que as imagens tenham ajudado.
Descrevendo uma lâmina.
Sabe-se que a descrição de uma lâmina, seja de histopatologia ou de citologia, é muito importante para a interpretação diagnóstica do clínico, cirurgião ou oncologista. Muitos nem leem, é verdade, mas assim mesmo é obrigação profissional do patologista fazer uma boa descrição.
Uma descrição adequada não deve ter uma verborragia desnecessária, como dizer o que não se observou. Por exemplo, é perda de tempo escrever algo do tipo: “não havia alterações na mucosa gástrica”. Ora, se houvesse alguma alteração, isso estaria descrito. Eu mesmo já recebi reclamações de colegas por não escrever o não observado (Expliquei a inutilidade desse tipo de descrição, mas por teimosia, penso eu, ele não gostou muito). Mas o fato é: Deve-se relatar apenas o observado! Se não foi descrito é porque não foi visto!
Certa vez, caminhando pela internet adentro, procurando formas para relatar as leituras, encontrei um guia de descrição de lâminas! Feito pela Universidade Federal de Santa Maria, lá no Rio Grande do Sul; esse guia foi montado a partir de um primeiro feito pela AFIP (Armed Forces Institute of Pathology), uma autoridade na área. Assim posto aqui esse guia, em pdf, para o patologista que deseja aprimorar sua escrita ou para os veterinários clínicos que tenham curiosidade de saber qual a metodologia empregada.
Clique no link para baixar.
Ruptura diafragmática, relato de caso.
Como quase todo o caso de necropsia que eu recebo, o histórico não foi satisfátório. No caso desse cão, recebi como histórico o corriqueiro: “Ontem estava bem e hoje morreu”. Esse ofício tem dessas coisas, mesmo.
Nesse cão, ao exame externo, o tórax mostrou som timpânico à percussão. À retirada da pele notou-se um evidente abaulamento do tórax como mostra a foto:

Ao examinar a cavidade abdominal notei uma convexidade no diafragma devido à pressão positiva na cavidade torácica, que o projetava caudalmente na cavidade, o que não é normal. Segue a foto:

Examinando a cavidade e a sintopia dos órgãos, percebi a ausência do estômago. Investigando melhor notei uma abertura no diafragma, na região dorsal esquerda, comunicando-se com a cavidade torácica, por onde o duodeno estava passando, como mostra a foto:

Então abri o tórax. E lá se encontrava o estômago preso ao epíploon, comprimindo os pulmões e deslocando totalmente o coração:

Excisando-se e estirpando-se o epíploon, o estômago mostrou-se totalmente dilatado e, devido a compressão vascular, apresentando uma congestão severa das veias da curvatuta maior:

Por fim, a causa mortis do animal foi de insuficiência cardiorrespiratória devido a uma ruptura diafragmática e a insinuação de órgãos abdominais (no caso o estômago) na cavidade torácica.
A ruptura diafragmática, ou hérnia diafragmática(como assim era denominada) consiste na interrupção da continuidade do diafragma e o deslocamento de órgãos abdominais para a cavidade torácica. A forma mais comum de hérnia diafragmática em cães e gatos é a traumática (sendo as causas mais comuns os acidentes automobilísticos, além de chutes, quedas ou brigas), podendo também ter causas congênitas.
Como não havia formação de saco herniário, não se trata de uma hérnia verdadeira, a denominação “hérnia diafragmática” não é mais usada (Obrigado, Guilherme, pelo toque.)
Fotos macroscópicas e microscópicas.
Desde que comecei a trabalhar com patologia, sempre fotografei necropsias e lâminas (não todos os casos, claro). Então resolvi disponibilizar umas fotos aqui no blog.
Muitas fotos são de casos antigos que nem me lembro mais as conclusões, mas as fotos servem como arquivo para demonstrar lesões. Então fica aqui postado um breve e simples “atlas” de patologia veterinária. Virão mais em breve!
A foto a seguir mostra uma peritonite serofibrinosa em um gato. Notem a efusão amarelada e a fibrina recobrindo as alças intestinais e parte do fígado:

Esta outra, do mesmo caso, mostra a razão da peritonite: uma úlcera gástrica perfurada, na região do piloro (vista externa):
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A próxima foto mostra a região abdominal de um cão, apresentando múltiplas petéquias e sufusões:

E os rins desse cão apresentavam-se escurecidos e com múltiplos pontos brancos, irregulares, coalescentes e em baixo relevo (depressão), revelando glomerulonefrite e nefrite intersticial, como mostra a foto:

E na microscopia, havia intensa calcificação dos túbulos renais, dos glomérulos renais e vasos sanguíneos (além da glomerulonefrite e da nefrite intersticial):


A próxima foto é do conteúdo gástrico de um cão envenenado por composto de carbamatos, conhecido coloquialmente por chumbinho. Há uma grande incidência desses casos, infelizmente. Os pontos acinzentados, redondinhos, mais concentrados nas bordas são os grânulos de veneno:

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Agora a foto microscópica de uma efusão peritoneal em um cão, num caso de linfoma, mostrando linfócitos pequenos, grandes linfócitos atípicos, eosinófilos e uma grande célula mesotelial (acima) exibindo uma bonita Corona radiata:

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Esta outra mostra um achado não-diagnóstico, corriqueiro nos exames citológicos, que são os fragmentos de queratina. Geralmente são alongados, irregulares, lembrando “lascas”:

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Quando encontram-se bactérias em um exame citológico é imprescindível saber se essas bactérias são contaminantes do material ou se estão efetivamente causando a infecção. Na grande maioria vezes, os casos de infecção mostram bactérias fagocitadas por neutrófilos ou macrófagos, o que não acontece nos casos em que as bactérias são contaminantes. A foto a seguir mostra um exemplo de infecção no exame citológico do sedimento urinário de um cão: São bacilos fagocitados por neutrófilos, já em processo de degeneração, e muitos bacilos livres:

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Agora um caso de histiocitoma fibroso malígno em cão. Notar os histiócitos atípicos e as células gigantes multinucleadas:

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Nesta foto observa-se a intensa vacuolização do músculo piloeretor em um caso de hipotireoidismo canino:

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A lesão a seguir é um infarto cardíaco isquêmico, em um Cocker Spaniel Inglês. É possível ver a área de infarto pela superfíe externa do coração (mancha esbranquiçada) e ao corte nota-se a extensão da isquemia (manchas grandes esbranquiçadas) e ainda observam-se sufusões subendocárdicas no músculo papilar:

o mesmo coração, ao corte:

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A próxima imagem é de uma neoplasia cerebral em um cão da raça Lhasa Apso. Neste caso trata-se de um oligodendroglioma (diagnosticado na microscopia). Infelizmente a foto da microscopia ficou péssima, mas tentarei obter outra. Por enquanto fica a foto macro:

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Agora segue a imagem de um hemangiossarcoma esplênico num cão de 12 anos. Notem o ponto de ruptura na superfície da neoplasia:

Por hoje termino aqui esse post. Em breve farei outro com mais imagens macro e micro. Espero que as imagens tenham ajudado. Forte abraço!
Ascite quilosa: Um caso de linfangiectasia.
Solicitaram-me, certa vez, uma análise da efusão peritoneal de um Shi-Tzu com um ano de idade. Quando recebi o material, o líquido mostrou-se translúcido, seroso e de coloração amarelada (não tenho foto, infelizmente). Quando fiz a citologia do sedimento, notei muitos linfócitos pequenos, células mesoteliais, algumas gotículas de gordura e neutrófilos. Chamou-me a atenção a presença de mastócitos e eosinófilos na lâmina. É sabido que mastócitos e eosinófilos participam ativamente de processos inflamatórios na fase aguda e sub-aguda(principalmente os eosinófilos) e são menos ativos na fase crônica; como não vi microrganismos e células neoplásicas, meu resultado foi de exsudato inflamatório asséptico (não foi eosinofílico, pois não havia eosinófilos suficientes por campo).
Conversei com a veterinária que atendeu o caso, discutimos e ficamos entre alguma parasitose ou algum processo inflamatório na cavidade. Mesmo depois do resultado fiquei um tanto reticente e não muito convencido das nossas suspeitas.
Uma semana depois recebi uma nova amostra do líquido cavitário do mesmo animal. Para minha surpresa, o líquido era de coloração branca, ou seja, uma efusão quilosa! Segue a foto:

Segundo a veterinária, foram drenados quase 500 ml de quilo: uma ascite quilosa, portanto. À citologia, corada pelo panótico rápido, o esfregaço se mostrou com hemácias ao fundo, muitos linfócitos pequenos e macrófagos reativos (a predominância de linfócitos pequenos é uma característica da efusão quilosa). Desta vez bati a foto da lâmina:

As ascites quilosas são causadas pelo derrame de linfa e gordura (quilomícrons) na cavidade abdominal. Esse derrame é causado por um distúrbio chamado linfangiectasia, que é a dilatação dos vasos linfáticos do mesentério e/ou da submucosa intestinal; geralmente a causa pode ser por obstrução dos vasos linfáticos devido a reações granulomatosas, massas tumorais ou infiltrados linfossarcomatosos nos linfonodos mesentéricos. Outras causas são: a Síndrome da má absorção e, segundo o Jubb & Kennedy, o que se descreve como doença intestinal inflamatória idiopática, que causam a inflamação da lâmina própria intestinal e a dilatação dos vasos linfáticos podendo levar a linfangiectasia.
No caso deste Shih-Tzu, descartei a hipótese de neoplasia (por ser um tanto improvável em um cão de 1 ano); assim minhas suspeitas ficaram na síndrome da má absorção ou na doença inflamatória idiopática. Para confirmar o diagnóstico seria necessária uma biópsia intestinal, mas infelizmente a proprietária optou por não realizá-la (é um direito dela…). Pelo menos chegou-se a um resultado até que satisfatório.
Pelo que sei, esse animal hoje está sendo tratado pela veterinária e faz drenagens da ascite periodicamente. Eu continuo resolvendo meus casos, mas com aquela esperancinha de que um dia a proprietária resolva fazer a biópsia para eu fotografar a lâmina, pois curiosidade de patologista é algo patológico.
Referência:
JUBB, KENNEDY & PALMER, Pathology of domestic animals, 5a. ed, vol. 2, p. 102-104, 2006




































